Concreto estrutural com agregados reciclados: é possível?

Pesquisas buscam material com maior resistência, usando “cimento verde”, brita reciclada e areia de plástico
6 de outubro de 2020

Concreto estrutural com agregados reciclados: é possível?

Concreto estrutural com agregados reciclados: é possível? 1024 576 Cimento Itambé

Pesquisas que acontecem simultaneamente no Reino Unido, na Alemanha, na Suíça e na Índia buscam um concreto com bons índices de fck (resistência característica do concreto à compressão), capaz de ser utilizado em estruturas e fundações, mas que seja composto por maior porcentagem de agregados reciclados. Os estudos não pretendem substituir o Cimento Portland, mas torná-lo mais sustentável, fruto do coprocessamento (uso dos resíduos industriais e agrícolas), das pozolanas (inclusive cinzas volantes), das escórias de alto-forno e de um consumo menor de energia para ser produzido. Consequentemente, emitirá menor volume de CO2, o que lhe renderá o título de “cimento verde”.

Os avanços nesse sentido já impactam normas técnicas em países europeus. Um exemplo é a Alemanha, onde o comitê de concreto estrutural (DAfStb) está propenso a rever diretrizes. Principalmente, a que prescreve um limite de 45% na proporção de agregado reciclado para a produção de concreto estrutural. O que leva a essa mudança são os resultados dos testes ocorridos no ano passado, na Suíça. Pesquisadores conseguiram um concreto de 28 MPa com 90% de agregados reciclados. O estudo resultou no livro “Manual de Reciclagem: Construção como Fonte de Materiais” (Manual of Recycling: Building as Sources of Materials), publicado em 2019.

No Reino Unido, os testes foram além. Parceria entre a Universidade de Bath e a Goa Engineering College, da Índia, obteve um material com fck de 54 MPa, segundo estudo publicado na revista Construction and Building Materials. Em sua composição, o concreto utilizou 45% de brita reciclada e 30% de areia de plástico, além de cimento verde, que nada mais é que um Cimento Portland que gera menor emissão de CO2 e consome menos quantidade de energia para ser produzido. Isso é conseguido através da substituição parcial do clínquer.

Custo ainda restringe novos materiais a nichos de mercado

O professor-doutor do departamento de arquitetura e engenharia civil da Universidade de Bath, Richard Ball, explica para onde irá caminhar a pesquisa, principalmente no que se refere ao uso de areia de plástico. “Estamos aprofundando estudos sobre o tipo de plástico e o tamanho e forma das partículas. Quando identificarmos as propriedades mais favoráveis poderemos aumentar as adições sem comprometer as propriedades do concreto. Há também fatores importantes, como a reologia da mistura úmida, durabilidade ambiental e desempenho”, cita.

Dos agregados reciclados, o único que já é realidade é a brita a partir de resíduos de concreto armado demolido Crédito: Banco de Imagens

Dos agregados reciclados, o único que já é realidade é a brita a partir de resíduos de concreto armado demolido
Crédito: Banco de Imagens

O custo de um concreto estrutural com altos percentuais de agregados reciclados, e que ainda é uma exclusividade dos laboratórios, obviamente está fora da atual realidade do mercado. O próprio “cimento verde” esbarra no preço de produção. Da mesma forma que reduz a pegada de carbono em até 40%, um saco de 50 quilos pode custar o dobro do que é cobrado pela mesma quantidade de Cimento Portland convencional. Por isso, trata-se de material ainda restrito a nichos, apesar de os seus incentivadores estarem de olho em um mercado futuro – no caso, 2050. O mesmo ocorre com a areia de plástico.

Dos agregados reciclados, o único que já é realidade é a brita a partir de resíduos de concreto armado demolido. Só nos Estados Unidos, de acordo com a Associação de Reciclados da Construção (Construction & Demolition Recycling Association) 25% da brita usada em obras não-estruturais vêm da reciclagem. A aplicação é maior no subleito de rodovias secundárias com baixo tráfego de veículos pesados, na estabilização do solo, como camada para assentar tubulações e em artefatos pré-fabricados para mobilidade urbana e paisagismo. No Brasil, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o reaproveitamento ainda é baixo – em torno de 2% a 3%.

Entrevistado
Comitê Alemão de Concreto Armado
Departamento de arquitetura e engenharia civil da Universidade de Bath
Associação de Reciclados da Construção dos Estados Unidos

Contato
info@dafstb.de
ace@bath.ac.uk
info@cdrecycling.org

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

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